Câncer de mama também pode influenciar positivamente a sexualidade da mulher

Quero compartilhar aqui a matéria que foi publicada pelo periódico Estudos de Psicologia (Campinas) em 2013 da minha pesquisa sobre câncer de mama e sexualidade. Deixei o link para a pesquisa na íntegra no final deste post.

Quando ouvimos que mulheres são submetidas à retirada parcial ou total da mama como parte do tratamento contra o câncer, imaginamos muitas consequências negativas para a sexualidade feminina. No entanto, pesquisadores da Universidade de São Paulo encontraram uma variedade de vivências da sexualidade após o câncer de mama, evidenciando o impacto tanto negativo como positivo da doença e seus tratamentos na vida sexual.

Em estudo recente os autores mostraram que os significados que cada mulher atribuiu à doença e seus tratamentos influenciaram sua vivência da sexualidade de um modo singular. Como impacto negativo na sexualidade os autores encontraram: preocupação com a proximidade da morte, temor das alterações corporais decorrentes dos tratamentos e a crença de que relações sexuais podem ser fator de risco para o aparecimento de um novo câncer. Como impacto positivo na vida sexual destacou-se a proximidade da morte como fator de promoção e valorização da vida, sendo que essa valorização facilita os cuidados de si, anteriormente negligenciados; consequentemente, há melhora da autoestima.

Esses achados foram sistematizados em artigo recentemente publicado, que é derivado de um projeto de pesquisa mais amplo intitulado “Sexualidade e câncer de mama”, desenvolvido pelo grupo de pesquisa “Saúde e Gênero”, coordenado por Elisabeth Meloni Vieira, Professora Associada da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Ao considerar a importância da saúde sexual para a preservação da qualidade de vida da mulher mastectomizada, o psicólogo que atua nessa área deve visar ao bem-estar psicológico da paciente, ajudando-a a identificar e compreender os fatores emocionais que intervêm na sua saúde e impactam seu bem-estar sexual, possibilitando sua ressignificação”, afirma Manoel Antônio dos Santos, Professor Associado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, orientador do projeto de Iniciação Científica que originou o artigo.

Quanto mais informada a paciente estiver em relação à sua doença, tratamentos e prognóstico, melhor será sua capacidade de enfrentar as vicissitudes do adoecimento e mais confiança depositará nos profissionais da equipe multidisciplinar de saúde.

“Nesse cenário, o papel do profissional de saúde ganha destaque. Ele deve estar preparado para a amplitude de possibilidades vivenciais das mulheres com câncer de mama em relação à sua sexualidade, o que exige o aprimoramento de seus recursos para diagnóstico e intervenção, oferecendo orientação com aconselhamento qualificado”, afirma Vanessa Monteiro Cesnik, psicóloga, bolsista da FAPESP e autora principal do artigo. “Além disso, as instituições hospitalares precisam cada vez mais investir em ações educacionais para qualificar os profissionais que atuam em contextos cada vez mais complexos de atendimento”.

O artigo contou com a colaboração de outros pesquisadores: Alain Giami, renomado pesquisador da área da sexualidade e diretor de pesquisa do INSERM, Paris; Ana Maria de Almeida, Professora Associada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto; e Daniela Barsotti Santos, doutora pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto.

O artigo The sexual life of women with breast cancer: meanings attributed to the diagnosis and its impact on sexuality, de V. M. Cesnik, E. M. Vieira, A. Giami, A. M. Almeida, D. B. Santos e M. A. Santos foi recentemente publicado no periódico Estudos de Psicologia (Campinas).