Como a cultura do estupro atrapalha os Profissionais da Saúde

“Ensina-se a cuidar de um corpo doente que não é sensual e nem sexual.”

Essa frase eu tirei da pesquisa de doutorado da enfermeira Graciela Dutra Sehnem e que se relaciona com um tema muito importante que precisa ser discutido na área da Saúde: Como a cultura do estupro atrapalha nós, profissionais da saúde, a cuidarmos da saúde sexual dos pacientes.

Porque será que precisamos considerar o paciente como ser assexuado no contexto clínico/hospitalar?

Quero contar uma história que ouvi do meu marido que é fisioterapeuta. Ele estava no curso de Osteopatia e o seu professor contou uma experiência que viveu em sua formação na Europa. Em uma aula específica todos teriam que ficar pelados e o professor europeu virou para o brasileiro e disse:

Preciso pedir desculpas para você, pois, diferente do Brasil, nós não ficamos tão confortáveis sem roupa na frente de outras pessoas. Então você vai ver algum tipo de constrangimento entre os alunos e que você não está acostumado por ser brasileiro.

O brasileiro conta que ficou chocado com o pedido de desculpas e que na verdade foi o último a realmente conseguir se despir na frente das outras pessoas. E naquela situação em que todos estavam nus ele percebeu um respeito enorme entre as pessoas.

Nós somos reconhecidos como um país que não tem tabus em relação à nudez e sexualidade, que lidamos tranquilamente com essas questões. O que eu vejo é que realmente não aparentamos ter esses tabus quando o assunto é levado com brincadeiras e piadas. Mas quando o assunto é para ser discutido com seriedade e responsabilidade os tabus aparecem. Muitos profissionais da saúde relatam em pesquisas que sentem medo de abordar o tema da sexualidade com os pacientes por ter medo de estar invadindo a privacidade desta pessoa.

E é aí que entra a cultura do estupro.

A cultura do estupro faz com que a pessoa que mostra sensualidade perca o seu direito de escolha. É como se ela deixasse de ser sujeito para ser objeto sexual do outro. É como se o fato da pessoa despertar o desejo sexual no outro desse permissão automática para ser tocada ou invadida.

“Se está vestindo decote ou roupa curta está pedindo para ser estuprada”.
NÃO.
Se está usando esse tipo de roupa é porque quer expressar sua sensualidade. E só isso. Se não fosse a cultura do estupro as pessoas olhariam essa sensualidade com respeito. Poderiam até sentir um desejo sexual, mas isso a pessoa viveria consigo mesma, sem ter que envolver a primeira pessoa.

Na cultura do estupro confunde-se sensualidade com permissão para sexo. Confunde-se sensualidade com permissão para ser invadida.

E o que isso tem a ver com a área da Saúde?

Como estamos imersos nessa cultura mesmo sem querer, para evitar a possibilidade de sermos invasivos com os pacientes muitas vezes vamos para a polaridade oposta que é não ver a sensualidade ou sexualidade do paciente.

Nós transformamos a pessoa em um ser assexuado como forma de respeito para com aquela pessoa. E como forma de se proteger. Já ouvi de mais de uma profissional da saúde o seguinte relato:

“Evito abordar o tema da sexualidade com pacientes do sexo masculino, pois tenho medo de que ele entenda como se eu tivesse dando em cima dele e venha me assediar”.

Então ver o paciente como assexuado é também uma forma de se proteger de um possível assédio que possa vir dessa interação.

Mas essa não é a pior parte.

A pior parte é a contradição de por querer respeitar o paciente, o profissional da saúde pode estar sendo invasivo sem querer. Como assim?

Se eu como enfermeiro(a), médico(a), fisioterapeuta ou qualquer outra profissão da saúde que envolva o toque no corpo do paciente considero o corpo do paciente como sexualizado, toda vez que for tocar em partes íntimas vou pedir licença e explicar detalhadamente o que farei e o motivo para que a pessoa não se sinta invadida na sua sexualidade. Por outro lado, se considero o corpo como assexuado vou tocar nas partes íntimas como se fosse qualquer outra parte. E aí como será que o paciente se sente de ser tocado sem aviso prévio em suas partes íntimas? Provavelmente se sente desconfortável ou invadido.

E é aí que está na minha opinião a maior contradição. Porque consideramos o corpo do paciente como assexuado para não invadir sua privacidade e é justamente isso que acontece. Considerar o corpo como não sensual e não sexual não é a saída.

Se não fosse a cultura do estupro ser tão instalada na nossa sociedade poderíamos ver/ser um corpo sensual e sexual sem ter medo de invadir ou ser invadido. Poderíamos ver essa sexualidade com respeito sabendo que existe e pertence àquela pessoa.  Que não tenho direitos sobre a sexualidade do outro. Que não tenho direitos sobre o corpo do outro. Que não precisaria considerar o outro como assexuado como forma de respeito. O respeito ao corpo sexuado seria automático. O tema da sexualidade seria mais leve para todos, pacientes e profissionais da saúde.