Entrevista sobre INTERSEXO. O que você sabe sobre o assunto?

Essa entrevista foi feita com Amiel Vieira (trans e intersexo) para falarmos de um assunto que normalmente fica em segredo até mesmo para as pessoas que vivenciam a condição de intersexualidade.

“Intersexo” é o termo comumente usado para designar uma variedade de condições (referentes a anatomia reprodutiva ou sexual que não se encaixa na definição típica de sexo feminino ou masculino), como por exemplo uma ambiguidade genital.

  1. Quando você nasceu, qual sexo foi atribuído a você?
    Nasci em 1982, sexo feminino.
  1. Quando sua família descobriu que você era intersexo? Como foi?
    No primeiro mês de vida. Foi complicado, muitos exames e outros problemas pra tratar como o pé torto congênito e não conseguir pegar mamar por um bom tempo. A família teve que se reajustar ao processo e ao pós-correção. Fase punk pelo que soube.
  1. Sei que existem vários tipos de intersexualidade. Você poderia mencionar as estatísticas e dizer qual o seu tipo?
    41 tipos de intersexualidade. Sou portador de síndrome de insensibilidade a andrógenos e parte da estatística de que 1 a cada 2000 nascimentos é intersexo, segundo dados da ISNA.
  1. Quando criança você sentia sua identidade de gênero adequada para o sexo que foi determinada?
    Não. Sentia estranha e desencaixada.

“sentir-se só por não ter contato com outros intersexo, sem falar no fato de não ser oferecido tratamento psicológico adequado a pessoas com condições intersexuais, aumentando o risco de depressão e consequentemente a proeminência do risco de suicídio”

  1. Com qual idade você percebeu que a sua identidade de gênero era diferente?
    Aos 34 anos, quando descobri que era intersexo e tomei consciência da estranheza que sempre me acompanhou, decidi reconstruir a minha identidade com o gênero original.
  1. Você sugere que seja explicado para a pessoa sobre sua condição intersexo em idade anterior a que você descobriu?
    Sim. A pessoa intersexo tem o direito de saber sobre o funcionamento do seu próprio corpo.
  1. Pensando em ajudar as pessoas a tomarem decisões quanto a orientação dos casos de intersexualidade, você tem alguma sugestão de como esse assunto pode ser introduzido e a partir de que idade?
    Para mim, teria ajudado saber a partir da consciência sobre gênero na adolescência quando esses assuntos chegam a escola.
  1. Você foi submetido a cirurgias de “normalização” da genitália?
    Sim, aos 9 meses.
  1. A normalização feita foi adequada a sua identidade de gênero hoje?
    Não.
  1. Você se considera uma pessoa transexual?
    Sim.
  1. Na sua opinião, é importante fazer as cirurgias de normalização da genitália? Se sim, qual idade mais adequada?
    Acho que é algo que importante, mas que depende da forma como a pessoa com condição intersexo percebe sua identidade de gênero. Entre 16-18 anos.
  1. Na sua opinião, é importante dar hormônios femininos ou masculinos para crianças e adolescentes intersexo?
    Sim, mas só a partir da definição da identidade de gênero, antes disso não.

“É necessário ouvir e ter paciência com a pessoa com condição intersexo, mas acima de tudo se informar, olhar para além da sua moral pessoal e de seus preconceitos. Somos diferentes, mas não somos anormais. Nascemos na sociedade errada, não estamos errados”.

  1. Você mencionou uma pesquisa em que muitas pessoas intersexo tentam suicídio. Você poderia mencionar essa pesquisa e dizer o motivo pelo qual você acredita que isso acontece?
    Neste site você tem dados de uma pesquisa realizada na Austrália , um dos países mais atualizados no tratamento a pessoas intersexo: https://oii.org.au/30313/intersex-stories-statistics-australia/ . Quando 60% dos entrevistados relatam que já pensaram em suicídio, isso reflete a falta de informação e nossa invisibilidade, a solidão por ser intersexo (sentir-se só por não ter contato com outros intersexo, sem falar no fato de não ser oferecido tratamento psicológico adequado a pessoas com condições intersexuais, aumentando o risco de depressão e consequentemente a proeminência do risco de suicídio).
  1. Se você fosse dar um conselho para profissionais da saúde que trabalha com pessoas intersexo, o que você diria?
    É necessário ouvir e ter paciência com com a pessoa com condição intersexo, mas acima de tudo se informar, olhar para além da sua moral pessoal e de seus preconceitos. Somos diferentes, mas não somos anormais. Nascemos na sociedade errada, não estamos errados.
  1. Se fosse dar um recado para pessoas que trabalham nas escolas, que recado daria?
    Falar sobre gênero e sexualidade é urgente. Os alunos precisam conhecer a pluralidade dos corpos e das identidades e acima de tudo aprenderem a se aceitar , se amar e respeitar aquele que é diferente de você.
  1. Tem algo a mais que você gostaria de mencionar para nós profissionais da saúde?
    Procurem estar sempre atualizados na questão de gênero e sexualidade, sempre abertos a aprender e a respeitar a pluralidade de corpos e identidade, limpando a lente dos olhos com que vê o mundo e permitindo que a vida se apresente como ela é para você e sua prática em saúde.

Quer saber mais sobre intersexualidade?

Confira o blog do Amiel Vieira sobre o assunto: https://indeterminade.wordpress.com/

 

 

  • Cristiane Helena dos Santos

    Muito boa a entrevista! Parabéns pela iniciativa, assunto novo pra mim obrigada pela oportunidade de conhecer algo novo.

    • Vanessa Cesnik-Geest

      Fico feliz que tenha gostado Cristiane!!

  • Meg Alves Sampaio

    Bom dia, Drª Vanessa! Adorei a entrevista, pois agrega muito aos nossos atendimentos.

    • Vanessa Cesnik-Geest

      Que bom saber que agrega para você!! 🙂 Vou buscar cada vez mais conteúdo e trazer aqui para o blog!

  • MCecilia de Souza

    Frente à estas colocações fico sempre me perguntando em que momento deixamos de entender a diversidade entre os seres humanos em todas as nossas características. Obrigada por me favorecer entender um pouco mais de uma realidade tão importante.

    • Vanessa Cesnik-Geest

      E eu agradeço pelo comentário que me ajuda a saber que estou no caminho certo… 🙂

  • Cláudia Emanuela

    É interessante conhecer o lado de uma pessoa que apresentou essa vivência, mas sou totalmente contra a ideia de implementação de incentivo a ideologia de gênero nas escolas!! Gostaria que abordassem o outro lado, ou seja, consequências em se expor tal ideologia para as crianças. Obrigada!!