Episiotomia, Laceração e a interferência na Vida Sexual da mulher

Para gente falar sobre episiotomia, laceração e a interferência disso na Vida Sexual da mulher após o parto eu preciso te dar algumas informações antes…

Tem uma história que é muito importante, que eu ouvi de um sexólogo muito renomado. Você sabe que já participei de muitos eventos na área da sexualidade e em um deles estávamos discutindo sobre dispareunia (dor na relação sexual) e suas causas principais. Esse sexólogo que também é ginecologista falou que uma das causas para dispareunia é a cicatriz que fica dentro do canal vaginal após o parto vaginal. Então existiu um corte ali naquela área e quando cicatrizou, causou dor para o resto da vida da mulher.

Quando eu escutei isso, eu fiquei super incomodada e preocupada: “como assim uma coisa que aconteceu durante o parto pode causar dor para o resto da vida?”. Isso pegou muito em mim, fiquei preocupada com isso e resolvi aprofundar mais e mais meus estudos sobre essa questão. E uma pergunta muito comum sobre essa situação:

Afinal de contas, o que é melhor para a Vida Sexual da mulher? Episiotomia ou correr o risco da Laceração?

Antes de responder a essa pergunta quero explicar de uma maneira simples o que é cada um desses nomes e depois vou trazer uma pesquisa que foi realizada com mais de 6 mil partos para poder estruturar nossa reflexão. Durante o texto vou trazer vários problemas que envolvem essa questão e no final as soluções, combinado?!

Então, o que é episiotomia? É um corte que é feito bem na abertura do canal vaginal com o objetivo de aumentar o espaço para o bebê passar. O bisturi corta pele, músculos, nervos e vasos da vulva e da vagina, que em seguida são costurados. Os defensores da episiotomia dizem: “eu corto aqui assim pelo menos não sai rasgando tudo”. Quando ouvimos isso até que esse argumento faz sentido. Mas para saber se realmente é esta a melhor opção precisamos avaliar o que é a laceração, suas consequências e, mais importante que isso, qual é a probabilidade de acontecer.

Episiotomia médio lateral

E o que é a laceração? É uma lesão orgânica que pode acontecer espontaneamente no corpo durante o parto vaginal. Existem vários graus de laceração, com consequências diversas. A laceração em geral quando olhamos de fora assusta um pouco, pois como é uma lesão orgânica então ela não é reta como a episiotomia e pode parecer maior. Porém em geral ela acontece de maneira mais superficial, sem envolver músculos, nervos, etc. então a recuperação tende a ser mais rápida. O que precisamos pensar aqui é: Quais os graus de laceração e qual a probabilidade de cada um ocorrer?

Laceração de 1º grau: é uma lesão apenas epitelial, ou seja, apenas da pele. Em casos de laceração de 1º grau, de tão superficial que é, não precisa dar ponto. É um corte que naturalmente se regenera.

Laceração de 2º grau:  é uma lesão que é epitelial e mais alguma parte da musculatura pélvica. Esse tipo de laceração normalmente precisa dar ponto para ajudar na cicatrização, mas nem sempre.

Laceração de 3º grau: é uma lesão que atinge o esfíncter anal. Esse tipo de laceração necessita de mais cuidados médicos para reestruturação.

Laceração de 4º grau:  é uma lesão que atinge também a mucosa anal e necessita de mais cuidados médicos para reestruturação.

 Quando vemos simplesmente as definições de episiotomia e laceração dá um medo enorme e não dá para saber o que é pior… Mas quando analisamos em profundidade a probabilidade de cada uma dessas lacerações de acontecer, podemos ter mais segurança para afirmar qual das situações causa menos problemas para a Vida Sexual da mulher.

Um desafio que envolve o clitóris…
Na imagem abaixo podemos ver que o clitóris não é só aquela bolinha que fica escondidinha atrás dos lábios da vulva. O clitóris tem a sua continuação (que parecem perninhas) que descem em direção ao canal vaginal. E qual é o desafio aqui?

A episiotomia é feita normalmente na diagonal como na primeira imagem colocada aqui. Qual o motivo disso? Se fizer para baixo corre o risco de abrir o períneo em direção ao ânus unindo o canal vaginal e o canal anal. Se fizer para o lado corre o risco de cortar uma parte do clitóris. Então o procedimento é fazer um corte que eles chamam de médio lateral. Esse corte é para não pegar a perninha do clitóris. Mas existe um certo risco, pois se errar um pouquinho, já pode pegar um pedaço da perna do clitóris ou do bulbo do vestíbulo que é um tecido erétil que faz parte da função sexual da mulher. Outro risco é que com a cicatrização a mulher pode ter dores para ter relação sexual como eu disse no começo deste artigo.

Uma vez ouvi um médico ginecologista e sexólogo dizer: “As feministas reclamam que nós fazemos episiotomia para o lado e que corremos o risco de cortar um pedaço do clitóris, mas se cortar para baixo pode unir o canal vaginal e anal, então o que elas preferem?”.  Ou seja, quando falamos do contexto de gestação e parto, falamos automaticamente de sexualidade. Aquilo que for definido no momento do parto vai interferir totalmente na vida sexual da mulher para sempre. É muito tempo e é muito sério.

Uma dúvida que precisamos resolver…
Quando comparamos a laceração de 1º grau e a episiotomia não existe dúvida. É muito melhor uma lesão apenas epitelial do que uma que envolve musculatura pélvica, correto? A dúvida começa a surgir quando comparamos a laceração de 2º grau com a episiotomia, pois ambas envolvem lesão de musculatura. Porém que tipo de lesão é essa? Quando falamos de uma lesão orgânica ela sara com mais rapidez por qual motivo? Porque a lesão que ocorre respeita os contornos da anatomia do corpo. Essa lesão vai desviando de órgãos, glândulas, nervos. Vai “rasgando” apenas na parte mais mole e mais fácil de cicatrizar. Então apesar de aparentemente ir mais longe, esse tipo de lesão respeita mais o corpo do que o corte reto das estruturas. É como se na hora da lesão o caminho desviasse do clitóris, contornasse glândulas. Quando fazemos um corte reto, apesar de ser mais fácil para dar ponto, a gente não respeita as curvas do corpo. E as pesquisas mostram que, mesmo as lacerações de 2º grau que atingem a musculatura, elas têm mais chance de cicatrização, de recuperação, muito mais natural e muito mais rápida.

Faz sentido para você esse tipo de pensamento? Gostaria de um comentário seu no fim desse artigo para saber a sua opinião.

Vanessa, mas e as lacerações de 3º e 4º graus? Elas não são horríveis? Não é melhor ter a episiotomia do que correr o risco de ter uma dessas duas lacerações?
Para responder essa pergunta eu preciso trazer a pesquisa que prometi lá no começo do artigo. Então vamos olhar para os números? Porque quando eu olhei para estatística, eu fiquei bem mais aliviada e bem mais feliz em responder essa questão. E por isso eu quero compartilhar com você.

Pesquisadoras vinculadas à Escola de Enfermagem da USP conseguiram analisar 6.365 partos vaginais feitos em um hospital para avaliar a porcentagem de episiotomias realizadas, lacerações de todos os graus e o que chamamos de integridade perineal (quando o períneo saiu ileso!). Dentre esses partos um número de 4718 aconteceram sem intervenção de episiotomia. Você quer saber quantos desses partos tiveram períneo íntegro e quantos tiveram cada um dos tipos de lacerações?


Fonte: Riesco, Costa, Almeida, Basile & Oliveira (2011)

Olhando para esses números, qual a probabilidade de períneos íntegros ou com apenas lacerações de 1º grau? Mais de 83%. Quando vejo esse número fico espantada. Pois como podemos manter uma rotina de episiotomia “preventiva” de algo que tem uma probabilidade tão pequena de acontecer (17%)? Se levarmos em consideração que a laceração de 2º grau ainda é melhor que a episiotomia pela questão de respeitar a anatomia do corpo e criar uma lesão mais orgânica, estamos protegendo as mulheres de que quando escolhemos fazer episiotomia? Estamos protegendo da possibilidade de ter uma laceração de 3º grau que ocorre em apenas 0,1% dos casos?

Apesar de ser uma pesquisa realizada em apenas um hospital, o grande número de dados coletados dá um peso enorme para essa reflexão. Então quando olhamos para as estatísticas e para as consequências de cada uma das situações (episiotomia x sem intervenção) vemos que a menor interferência na Vida Sexual da mulher é encontrada na situação de “correr o risco” de um parto vaginal sem intervenção de episiotomia. Existem sim fatores de risco que são explicados com mais detalhe no artigo original e que podem ser utilizados para definição melhor de critérios para a episiotomia. Mas temos que pensar nesse procedimento com muita cautela, pois a interferência dessa decisão na Vida Sexual da mulher pode ser muito grande.

E para finalizar, existe como prevenir a laceração? Siiiimmmm!!
Existe. Fisioterapia pélvica para fortalecimento do períneo, fortalecimento da musculatura de glúteo e quadril com pilates, pompoarismo, EPI-No, massagem do períneo… E um dado interessante: A posição do momento do parto interfere também. A posição de cócoras aumenta em 30% o tamanho da abertura vaginal, aumentando as chances de períneo íntegro.

Porque não fazemos isso em todos os hospitais?
Parto de cócoras? Massagem pélvica? Vou ter que por meu dedo lá e massagear? Vou ter que aprender a mexer na mulher na área genital da mulher pensando no prazer sexual? Vou ter que falar de sexualidade com a mulher, com o parceiro ou parceira? Muita gente foge disso porque trabalha com sexualidade. Muita gente foge de conversar sobre tudo isso por medo de não saber como abordar o tema. Muita gente foge desse tema por medo de não ser levado a sério. 

Você se sente assim também? Quer aprender mais sobre como abordar o tema da sexualidade no contexto da saúde e ajudar ainda mais seus pacientes? Acesse: http://falandonaquilo.com.br/curso

O meu convite nesse momento é que nós, profissionais da saúde, estejamos cada vez mais preparados para falar do tema da sexualidade com nossos pacientes, familiares deles, equipe, para que a gente possa incluir o cuidado integral da saúde sexual nos procedimentos e decisões que vamos tomar.

Curso de Extensão em Educação Sexual para profissionais da Saúde: http://falandonaquilo.com.br/curso

Esse artigo te ajudou em algo? Então compartilhe para ajudar mais pessoas!

Pesquisa: Riesco, M. L. G., Costa, A. D. S. C. D., Almeida, S. F. S. D., Basile, A. D. O., & Oliveira, S. M. J. V. (2011). Episiotomia, laceração e integridade perineal em partos normais: análise de fatores associados. Rev enferm UERJ19(1), 77-83.

  • Déia Nunes

    Parabéns pelo artigo, muito boa a explicação e o tema abordado. Sou acadêmica de enfermagem e acrescentou muito nos meus conhecimentos.

  • Renan Martins

    A atenção ao parto hospitalar virou uma linha de produção. O profissional de saúde nem pensa mais se tal intervenção é benéfica ou não (ou até mesmo se a mulher a deseja ou não). Ser admitida no hospital é perder sua autonomia e ganhar um combo fechado de procedimentos despersonalizados e abusivos.

  • Cláudia Emanuela

    Muito interessante o assunto abordado, importantíssimo ter o conhecimento da técnica com e sem intervenção, acabando com certos mitos que ouvimos muitas vezes da boca de profissionais!! Como estudante de fisioterapia, acho de extrema relevância poder instruir uma futura paciente sobre esses assuntos!!

  • Lidiane Ferreira

    Adorei o artigo!! esclarecedor e necessaria a abordagem da temática.