Sexualidade e Saúde Mental

Como estamos falando de sexualidade no contexto de saúde mental?

Dentre as transformações no contexto da saúde mental através pelo processo da Reforma Psiquiátrica, destaca-se a maior participação social dos doentes mentais, inclusive a maior convivência com suas famílias.

Estas pessoas atualmente participam de suas comunidades e criam suas formas de relacionarem-se com o mundo em que vivem. A proposta da atenção psicossocial é que o doente mental circule para além de hospitais, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), inclusive para além de suas próprias casas com suas famílias.

Dessa forma, tornem-se mais ativos em construir seu cotidiano, permitindo ampliar suas descrições de si para além de seus diagnósticos.

No entanto, há ainda alguns desafios neste percurso. Para este artigo será discutido apenas um: a vivência de sua sexualidade.

Neste contexto da saúde mental, quando falamos em família, que família é essa? Geralmente a primeira ideia é de uma família em que aquele que faz tratamento é o filho, e seus pais são os responsáveis pelo tratamento.

Entretanto, será que é apenas essa constituição familiar que existe no cotidiano destas pessoas? Se pensarmos que sim, desconsideraríamos diversas famílias em que a mãe ou pai são aqueles que fazem tratamento. Seriam muitas famílias negadas e negligenciadas em relação a seu cuidado psicossocial e psiquiátrico.

Quando a ideia predominante de família é aquela composta por pai, mãe e filho doente mental parece que concordamos com o discurso de que quem estar em tratamento psiquiátrico não pode, ou não tem condições, de viver sua vida afetiva e sexual com naturalidade. Consequentemente, não constituem suas famílias.

No contexto da saúde mental e atenção psicossocial, tem sido um desafio compreender a sexualidade como parte seu cotidiano, uma vez que os sentidos de doença mental ainda estão intimamente ligados às suas incapacidades (especialmente de gerir a própria vida e de relacionar-se).

Na prática, existe uma diversidade de histórias de famílias que mostram exatamente o contrário. A vivência da sexualidade do doente mental é algo tão cotidiano quanto de qualquer pessoa. Ela está permeada por momentos de satisfação, de dúvidas, de sofrimento, de segredos, de intimidade, de companheirismo, de amor…

Gostaria de propor a seguinte reflexão. Considere três casais. O primeiro casal é formado por pessoas que nunca realizaram nenhum tratamento psiquiátrico; o segundo, ambos estão em tratamento psiquiátrico; e o terceiro, apenas um realiza tratamento psiquiátrico.

Imagine uma situação em que você encontre esses casais e eles te contam a novidade:

“Estão namorando”

Qual foi o primeiro pensamento que você teve em cada um dos casais? Qual a diferença? Qual a semelhança? Como você reage externamente para cada um destes casais? O que diz?

Claro que estas respostas dependem de outros detalhes, mas o objetivo é refletirmos que, em geral, muitos pensam e reagem diferente para cada um destes casais… Selecionei algumas reflexões que têm sido produtivas no meu cotidiano de trabalho em saúde mental.

Quando surgem casais novos, especialmente formados por pessoas em tratamento psiquiátrico, em geral, a primeira reação é “infantilizar” este namoro. Quando fazemos isso, afastamos da conversa o assunto sexualidade. Não perguntamos, não damos espaço para que eles falem disso. E sem o espaço de conversa e orientação, eles podem ter dúvidas, eles podem parar de tomar remédio para ter um melhor desempenho sexual, eles podem contrair DST e uma infinidade de outras consequências, inclusive, descompensar psiquiatricamente.

Por outro lado, quando o assunto da conversa é sexualidade, estamos conversando sobre de capacidade de relacionar-se, autoestima, ampliar interesses, enfrentar medos, novos conhecimentos e ser ativo em suas decisões. Dessa forma, estamos exercendo a reabilitação psicossocial que muitas vezes fica mais em livros do que no cotidiano.

O Estatuto da Deficiência efetiva o direito destas pessoas a exercerem sua sexualidade. Isso não significa que todas as pessoas com transtornos mentais queiram namorar, transar, casar… mas para aquelas que querem, este direito está garantido. Assim, uma das nossas funções enquanto profissionais de saúde é trabalhar estas questões nossos clientes e com a comunidade que convivemos (inclusive a própria equipe), considerando a unicidade cada história.

De que forma estamos trabalhando para facilitar um desenvolvimento de sexualidade das pessoas atendidas no contexto da saúde mental?

Texto por: Marília B. Palácio
Atua como psicóloga da Associação Hospitalar Thereza Perlatti e Psicóloga clínica com atendimentos individuais e familiares. Atua também como acompanhante terapêutica há 3 anos (mariliabpalacio@gmail.com).

  • Irene Fonseca

    Parabéns, vc é uma pioneira nesta abordagem!

    • Vanessa Cesnik-Geest

      Obrigada Irene!!! <3